Agora que sei o que dizer, tenho medo de fazê-lo. Escrever é correr um risco: o de ser descoberto. Quando me olho no espelho vejo coisas inesperadas. Meu texto é um espelho. E isso me perturba. Outro dia, como faço quase todos os dias, eu cruzei a praça municipal. E, nesse dia, como em quase todos os dias, havia um homem que, profundamente tranqüilo, dormia sobre um dos bancos da praça. Era negro, magro, vestia apenas uma bermuda surrada e usava como travesseiro, uma trouxa. Dentro dela, talvez, estivessem todos os seus bens, imaginei. A sombra de uma árvore enorme acolhia, refrescante, o seu sono público. Em contrapartida, eu era uma moça em uniforme de trabalho, com gola e mangas na camisa, calças compridas, sapatos apertados, bolsa num dos ombros. E pressa, muita pressa, porque não é permitido chegar atrasada, claro. Sobre mim, o sol, soterrando-me com seu calor espesso. Somos pessoas comuns. Eu e ele. Não deveria ser, mas é comum ver pessoas dormindo nas ruas. E é igualmente comum ...