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Mostrando postagens de 2008

UMA BREVE EXPLICAÇÃO!

Os textos abaixo foram publicados, originalmente, no jornal "O Colatinista", nas edições de fevereiro a outubro de 2008. A crôncia "Retrato em Verde" foi premiada no concurso literário "Nossa gente, Nossas Letras - 2007", realizado pelo Instituto Oldemburg de Desenvolvimento, e publicada num livro, junto com as outras crônicas vencedoras, sob o selo da Editora Record. Espero que gostem!

CRÔNICA BALZAQUIANA

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“[...] nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão.” Mário Quintana Apesar de já ter sido católica, devo ter me confessado a um padre apenas uma ou duas vezes na vida. Como isso foi durante a adolescência, devo ter-lhe dito que me arrependia de dizer palavrão, de responder mal à minha mãe, e de discutir com uma ou outra amiga, de vez em quando. Lembro que foi muito constrangedor aquele momento da confissão. Será que isso vale como pecado? Será que não esqueci alguma coisa? Será que só fiz isso? Mas aí veio a penitência, que não era tão grande assim: duas ou três orações, que fiz rapidinho, ajoelhada no altar da igreja. E, então o alívio. A dívida já era menor. Pronto, agora era só tomar cuidado. Principalmente com o que eu dizia. Sempre falei muito. Mas muito pouco de mim. Até que, um dia, morando longe da família e dos amigos, aprendi o que era a solidão. Como o orelhão era desconfortável e o celular, caro; voltei a escrever. Páginas e páginas de um caderno enfeitadinho de...

NO MEU LUGAR

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Não foi durante toda a minha vida que morei em Colatina. Cinco anos atrás, parti para Aracruz, a trabalho, e lá permaneci durante quase quatro anos. Quatro anos: muito e pouco tempo. Aracruz: perto e longe. Fui sozinha, minha família ficou. E, sozinha, comecei a traduzir a mim mesma, me conhecer. Sempre o mesmo renascer sempre. Pensei em não mais voltar a morar aqui, em seguir em frente a minha aventura e ir para outras cidades, conhecer novos lugares, novas pessoas. Proclamar a minha independência. Exercer, plenamente, o meu direito de ir e vir. Eu ainda alimentava a idéia triste de que voltar atrás pode demonstrar fraqueza, ou fracasso. Mas a vida tem seu senso de humor. E, um dia, houve o retorno. Voltei a ocupar o meu lugar no quarto da casa que continuava minha; na cidade que continuava minha. Sim, houve o retorno. Dos meus pés para os paralelepípedos das velhas ruas da infância; dos meus olhos para as paisagens ora confusas, ora bonitas desta cidade, ora confusa, ora bonita. Nova...

MARGARIDAS

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Dedicado a Margarida Vieira Dias, minha avó, que deixou os jardins deste mundo em 1991. As pessoas me perguntam, constantemente, como é que eu crio os meus textos. Mas, a essa interrogação, a única decepcionante resposta que tenho é: não sei. E digo isso por que não posso descrever mistérios. Escrever é misterioso, como é misterioso e leve o vôo de uma borboletinha colorida que invade, de repente, o escritório no meio da taquicardia da tarde. O que a terá atraído até aqui? Ora, quem saberá explicar. Lá pelos sete anos de idade, recordo-me do caminho que percorria para ir à escola. Havia casas com jardins bonitos, delicadas flores. Sempre gostei de flores. Mas um jardim, especialmente, chamava a minha atenção. Pertencia a uma residência luxuosa, porém esse não era o motivo de minha preferência, afinal, naquela época, com aquela idade, eu não compreendia muito bem por que uns poucos moravam em casas grandes; muitos, em casas pequenas; e tantos nem tinham casas para morar. Naquele jardim...

CONCEPÇÕES

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Não. Hoje não vou escrever uma crônica. Hoje não quero rótulos nem estereótipos. E também não quero máscaras, por isso já tirei as minhas. Tantas... Hoje não tive hora para acordar, o relógio não despertou. Não vesti a roupa uniforme de todos os dias, não assinei o cartão de ponto, e não terei de obedecer a um horário pré-definido para almoçar. Estou de férias. Liberdade temporária concedida por lei. Hoje eu pude acordar e ficar olhando para o teto até sentir o corpo doer e o calor aumentar. Pude sonhar acordada, viver e reviver a minha história no limite das paredes do meu quarto e na imensidão do meu imaginário. Hoje não quero nada pronto. Não quero que nada me seja entregue de mão beijada. Hoje eu quero reconstruir. Quero reinventar. Quero sair para a rua descalça e com a minha pior roupa. Eu quero andar pelos becos que causam medo e pelas calçadas que não têm dignidade. Quero sujar as minhas mãos na realidade e depois moldar este texto. E quero deixá-lo cheio de máculas. Quero as m...

REVELAÇÕES

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Agora que sei o que dizer, tenho medo de fazê-lo. Escrever é correr um risco: o de ser descoberto. Quando me olho no espelho vejo coisas inesperadas. Meu texto é um espelho. E isso me perturba. Outro dia, como faço quase todos os dias, eu cruzei a praça municipal. E, nesse dia, como em quase todos os dias, havia um homem que, profundamente tranqüilo, dormia sobre um dos bancos da praça. Era negro, magro, vestia apenas uma bermuda surrada e usava como travesseiro, uma trouxa. Dentro dela, talvez, estivessem todos os seus bens, imaginei. A sombra de uma árvore enorme acolhia, refrescante, o seu sono público. Em contrapartida, eu era uma moça em uniforme de trabalho, com gola e mangas na camisa, calças compridas, sapatos apertados, bolsa num dos ombros. E pressa, muita pressa, porque não é permitido chegar atrasada, claro. Sobre mim, o sol, soterrando-me com seu calor espesso. Somos pessoas comuns. Eu e ele. Não deveria ser, mas é comum ver pessoas dormindo nas ruas. E é igualmente comum ...

VENHA LER O PÔR-DO-SOL

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O sorriso doce do professor se abriu em leque de delicadeza e ele, então, me convidou a publicar mais um texto, neste jornal da cidade onde nasci. Eu disse sim. Sim, escreveria, claro. Afinal, era a oportunidade que eu tanto esperava, e não o decepcionaria. Mas as palavras... Ah, as palavras... Elas são amantes infiéis perante a dúvida do escritor incipiente: sem a menor cerimônia, vão-se temporariamente embora. E eu duvidei. E elas partiram, então. Aflita, me perguntei o que escreveria para tantas pessoas tão geograficamente próximas. O que dizer em tempos tão atribulados? “Quisera apenas receber notícias boas”, dissera o professor em sua publicação daquela semana. Perdão, querido mestre, mas não posso anunciar as tais boas notícias com as quais sonhas. Mas, por isso mesmo, pela falta de notícias de sublime beleza é que se deve escrever. Certo dia, eu atravessava a ponte num ônibus muito lotado e carregava comigo o cansaço de todo um dia de trabalho. Eu, praticamente, nem via quem est...

RETRATO EM VERDE

Dia desses, preso num engarrafamento, na tentativa de trazer paz aos ouvidos, atormentados pelas buzinas e motores, meus olhos passearam através da janela do carro e pousaram nas árvores da praça municipal – um dos poucos lugares da cidade onde posso ainda ver árvores em reunião. Nunca havia reparado na beleza daquelas árvores. Altas, de troncos fortes e copas densas com folhas em dois tons de verde, e promessas de flores no fim dos galhos. Embora passasse todos os dias por aquele mesmo caminho, eu não percebia a riqueza daquela imagem. E, daquela imagem em verde se fez ante meus olhos outra imagem de outras árvores: as árvores de minha infância. Lembrei-me das visitas ao sítio de minha avó. Havia flores, e bichos curiosos, havia um córrego e um balanço no bambuzal. De tudo, praticamente, eu gostava. Mas era nas árvores que eu entendia que havia um pouco de mim. Os galhos, ainda que altos, eram braços que acolhiam meu corpo esguio de menino; os frutos, saborosos desafios à lei da gravi...